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Por dois fios

10/12/2009

O tempo insiste em passar e me carregar com ele. Em nenhum momento me pede opinião. Tenho dois fios de cabelo brancos que não queria ter, queria meus cabelos sempre castanhos, ou no máximo clareados pelo sol. Mas eles não se comportam segundo a minha vontade. É por isso que eu digo e repito: sou uma vítima.

É comum ser recriminada por esse tipo de afirmativa porque “somos nós que construímos nosso futuro”, “nós fazemos a nossa história”, blá, blá, blá… – é o que dizem os ativistas da vida. Mas eu afirmo que tudo isso é mentira e a prova cabal está no meu espelho. Aliás, nos meus, comprei muitos para me certificar bem disso. Eu vivo uma impermanência forçada que percebo todo dia quando vejo minha imagem.

Existem alternativas ao problema dos cabelos brancos, é claro. “Por que você não arranca?” É a pergunta que 100% das mulheres fizeram quando comentei a existência dos dois fios. Ok, até poderia arrancá-los sendo apenas dois, mas e quando forem duzentos? e quando forem dois mil? “Ah, aí você pinta!” Brilhante resposta! Aí eu pinto todo mês porque o cabelo cresce sempre e eu continuo a mesma vítima do mesmo tempo.

Confesso que menti. Logo ali em cima. Desculpe. As respostas sobre arrancar ou pintar que eu dou às pessoas chatas que me importunam pela minha decisão em manter os fios não são estas que eu citei. É que eu tenho um pouco de vergonha de admitir porque todas elas riram quando eu falei. Mas num esforço sobrenatural direi a verdade logo ali abaixo. Desculpe pela breve digressão também.

É desonesto. É isso que repondo. Ninguém gosta de se admitir vítima, todos preferem ser tidos como senhores, mais que isso, algozes do tempo. E resolvem fingir permanentemente. Acho que se sentem inferiorizados, acho não, tenho certeza. Não querem que ninguém descubra que não têm todo poder.

Eu não, acho que me conformei um pouco com a minha condição. Mas acho também que isso é transitório. Acho que quando forem os duzentos, ou dois mil, vou pintá-los. Por que não é só a matéria que é sujeita ao tempo, as idéias também são. Este blog, por exemplo, não sei se volto por aqui.

Agora eu acho que entendo tudo – embora saiba da prepotência e inveracidade desta afirmação: até disso entendo. Só o que ainda é um mistério para mim é se o tempo muda a aparência ou o olho.

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4 comentários

  1. Ídola! Ídola! Ídola!
    Construiu o sepulcro deste ativista da vida, morri… de amores.
    Beijos
    Vinícius Antunes


  2. Ficou muito legal seu blog, Nô!


  3. Por que não é só a matéria que é sujeita ao tempo, as idéias também são. <- òtima frase.
    Mas, Manu, não pare de escrever aqui não…!


  4. Interessante demais. Primeiro a questão de as pessoas raramente se admitirem como vítimas, isso é fato. Segundo a a questão sobre o que na verdade o tempo muda: a aparência ou o olho. Acho que ambos…

    Gostei muito do blog, Manu.
    Escreve mais!



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