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Qual o tamanho do infinito?

19/05/2011

Quando pensamos em infinito, em geral, pensamos naquilo que não conseguimos ver os limites ou que não conhecemos. O céu nos parece infinito. Pensamos nas galáxias, no universo… Mas há cientistas que sugerem que o universo é finito, ainda que se encontre em freqüente expansão. Temos uma noção muito visual do infinito. Só acreditamos que nosso planeta tem fim porque vimos fotografias. Em 2006, porém, tive uma grata surpresa: um professor me ensinou que o infinito cabe na palma da minha mão. Ele disse que, matematicamente, tudo pode ser dividido eternamente. Aí eu entendi que tudo é uma grande concentração de infinito.

Quem foi que disse isso? Meu professor de Complementos da Matemática – disciplina obrigatória do curso de bacharelado em Geografia na UFRJ. Esta disciplina, que geralmente assusta os candidatos a geógrafos, me fez feliz. Eu ia duas vezes por semana, de manhã cedinho, para a faculdade ouvir histórias sobre o infinito, um macaco que caiu da árvore, perdeu o rabo e colocou um óculos, que uma mesa não é uma mesa, sobre santa Teresa de Ávila.

Pra não dizer que não havia número nas nossas aulas, uma vez nós calculamos quantos grãos de areia há na praia de Copacabana. É muito simples, respondemos às seguintes questões:

  • Qual a extensão da praia?
  • Qual a profundidade da areia?
  • Qual a largura da faixa de areia?

Assim, conseguimos saber o volume da areia da praia, em seguida, pensamos:

  • Quantos grãos de areia cabem em uma caixinha de fósforos?
  • Qual o volume de uma caixinha de fósforos?
  • Quantas caixinhas de fósforo cabem no volume de areia que calculamos antes?

Viu como é fácil? Nós calculamos os grãos de areia da praia e isso é lindo! Mais que qualquer equação que só nos leva à resposta dela mesma, como é freqüente nas aulas de matemática. Senti-me mais próxima de Deus, como se Ele tivesse compartilhado um segredo comigo.

Como se não bastasse tanta novidade, a prova final desta disciplina era você fazer o que quisesse. Eu recitei uma poesia. Passei com nota 9,4. Teve gente que tocou violão. Teve gente que contou histórias sobre seu cachorro. Teve gente até que fez fogueira e queimou dinheiro e isso é verdade, antes que você questione.

Mas porque eu fiquei com 9,4 e não 10? Por que a nota se constitui da seguinte forma:

  • Eu me dou uma nota pelo desempenho no curso como um todo.
  • Um aluno aleatório escolhido na hora me dá uma nota.
  • O professor me dá uma nota.
  • É levada em conta a freqüência nas aulas.
  • O dado é jogado.

Aí, da soma calcula-se a média aritmética e eu tenho uma nota.

O triste foi ver que tanta gente desvalorizava as aulas tão ricas desse professor, que se chama Ricardo Kubrusly, e me ensinou coisas eternas.

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4 comentários

  1. Que texto lindo. O Kubrusly ficaria muito feliz em lê-lo. Muito mesmo, tirando a parte do “queima dinheiro” pois o tachariam de criminoso, mas não deve ser novidade pra ele, né?
    Lembrou-me muito o texto magnífico do Rubem Alves que diz: “aprendo porque amo”. Como é bom ser professor e sentir-se amado pelos alunos, como é bom ser aluno e amar nossos professores.


  2. Que lindeza, Nô! É tão gostoso aprender.. lembro que ficava muito encantada com as aulas mais desprezadas pela galera da minha faculdade. Olha, me deu muita vontade de fazer parte dessa tua matéria aí. 😀


  3. Que bonito 🙂 Me fez lembrar muito algumas passagens de O Mundo de Sofia.
    Na faculdade eu não paguei nenhuma matéria que fosse assim, de fazer a gente despertar. Mas lembro que na escola eu tinha uma professora ótima, de geografia, que sempre contava histórias lindas no meio da aula. Ela falava de igual pra igual, falava bonito. Lembrei agora que no final do ano letivo eu escrevi uma carta pra ela, agradecendo pelos conselhos dados, me desculpando por não ter me empenhado tanto quanto eu deveria… Foi uma atitude que ela despertou em mim, é estranho pensar nisso agora…

    Esse é o tipo de gente que sempre deixa boas lembranças 🙂


  4. […] que escrevi minha última postagem, o Vinícius comentou aqui mesmo que o professor Ricardo ficaria feliz em ler o texto, o que me motivou a mandar um email pra […]



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