Archive for the ‘Eterno’ Category

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Prepare o seu coração

19/09/2011

Outro dia estava com a música dos pôneis malditos na cabeça e não conseguia parar de cantar. Se você conhece, deve saber que tem uma parte na musiquinha que fala assim: “Odeio barro, odeio lama. Que nojinho! Não vou sair do lugar!” Enquanto cantarolava esse trecho, lembrava do dia que eu tomei banho de açude no Cariri.

Deixa-me explicar. Em 2008, ainda estava na faculdade de Geografia e decidi cursar a disciplina Paleontologia, do curso de Geologia. Nesta disciplina, nós fizemos um trabalho de campo bem legal, pelo sertão nordestino. Ficamos duas semanas viajando de ônibus por lugares que eu jamais imaginaria conhecer. Dentre eles, fomos pra região do Cariri, no Ceará, mais especificamente pra cidade do Crato, vizinha de Juazeiro do Norte (onde tem a peregrinação do Padinho Padi Ciço). Fomos pra lá quebrar pedra pra catar fósseis.

Num belo dia de sol forte em um local de mineração de calcário, um minerador local falou pra turma que tinha um açude ali por perto. Então fomos nós, de calça jeans, mergulhar na água parada, porém limpa, do açude. O que seria um momento delicioso por causa do calor sertanejo-cearense transformou-se numa agonia, para mim, por um único motivo: o chão do açude era de lama (lógico!) e eu fiquei com muito nojinho de pisar ali. Logo que adentrei, senti uma pedrinha e me instalei sobre ela. Fiquei parada igual a um “dois de paus” (WTF???) todo tempo que estava ali. A galera nadava, ia dum lado pro outro, mas eu fiquei ali, parada, em cima da pedrinha.

Enquanto estava sob efeito da maldição dos pôneis, cantando a musiquinha irritante e lembrando do trabalho de campo de 2008, pensei: vou blogar sobre a minha viagem pelo sertão. Sendo assim, aqui se inicia uma pequena série de postagens, nas quais vou tentar mostrar pro mundo um pouco do sertão que vi. Vou falar um pouquinho das minhas impressões sobre o Parque Nacional da Serra da Capivara – no Piauí –, sobre a região do Cariri – no Ceará – e sobre o que vi do sertão baiano em Canudos. Confesso que estas postagens serão mais pra mim mesma que pra qualquer outra pessoa, pois me permitirão lembrar de momentos fantásticos que vivi.

Se comecei mencionando os bizarros pôneis malditos, termino citando o gênio-louco Geraldo Vandré: “Prepare o seu coração para as coisas que eu vou contar, eu venho lá do sertão…

Emanoelle no açude

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Não tenho tempo

22/08/2011

Você costuma dizer muito essa frase? Eu até digo, mas só quando a proposta é para fazer alguma coisa que não me interessa muito. Por isso, não lido bem quando amigos dizem que não tem tempo uns para os outros. Não existe trabalho, estudo, doença, responsabilidade, distância, cuidado com a casa que me impeça de fazer aquilo que quero, que me faz feliz e que eu acho importante, por mais fútil, por mais inútil que pareça.

Jogar conversa fora, dar uma volta por aí, sentar num lugar pra tomar uma Coca-Cola, fazer uma comidinha em casa pra receber uma pessoa especial… Isso é fundamental para trazer um pouco de doçura para nossos amargos dias cheios de preocupação.

Ok, talvez de fato, você não tenha tempo útil. Mas não diga “não tenho tempo” para coisas importantes. Dê um jeito, durma mais tarde um dia. Faça o tempo.

Começando a encerrar este post desabafo, deixo uma foto minha no Itamaraty, ao lado da representação do poetinha Vinícius de Moraes e um de seus versos que muito me encanta: “Ando onde há espaço, meu tempo é quando”.

Terminando de finalizar, um belo vídeo da Betânia recitando Poética, do Vinícius, e cantando Oração ao Tempo, do Caetano.

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Biscoito Maizena

25/06/2011

Senti um misto de raiva e tristeza quando fui ao supermercado na semana passada. Digo isto, pois quando fui comprar o clássico Biscoito Maizena, que me saciou desde minha mais tenra infância, me deparei com sua nova embalagem.

Para quem não sabe, a antiga embalagem do tão gostoso biscoitinho que nos delicia nos pavês, deixa crocante a maravilhosa palha italiana e nos salva quando não tem mais nada pra comer em casa é considerada um clássico do movimento concretista. Ela foi concebida numa época em que as embalagens de produtos eram obras de arte e não pura e simples propaganda.

Fiquei de frente para a prateleira do mercado, fiquei de frente para o Biscoito Maizena e não consegui encontrá-lo. Senti o mesmo que um índio que estava na praia enquanto se aproximavam as caravelas portuguesas, não pude ver algo que não sabia que existia. Quando, depois de alguns instantes, consegui identificar o meu querido biscoitinho, fiquei muito nervosa, me senti muito insultada. Quem disse que eu – consumidora – queria embalagem nova? Estou preparando um email para a Piraquê pedindo o retorno da antiga embalagem por que a embalagem do Biscoito Maizena é a única obra de arte que nós, pobres, podemos ter em casa.

Abaixo você pode ver a foto da nova embalagem – que nem no Google encontrei –, para não passar pelo mesmo que passei quando for fazer suas compras. Ah, a foto é da embalagem do biscoito light, mas a do comum é igual, só que vermelha.

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Profissão: PROFESSOR

23/05/2011

Depois que escrevi minha última postagem, o Vinícius comentou aqui mesmo que o professor Ricardo ficaria feliz em ler o texto, o que me motivou a mandar um email pra ele, o convidando para fazê-lo. Fui no santo Google e busquei pelo seu endereço, pois não possuía. Achei e escrevi para ele. No mesmo dia, a noite, fui surpreendida pelas seguintes palavras:

Emanoelle querida,

Obrigado pelo texto, muito lindo, a sua turma foi muito alegre e eu também. Me lembro do dia da fogueira. Foi divertidíssimo. É mesmo muito bom ser professor e poder, de alguma maneira, conversar com os alunos e ver suas verdades partidas ao meio. É com vocês que aprendo quase tudo que finjo saber.
Fico feliz que lembre de nossas aulas e histórias. Apareça em minhas aulas, elas sempre acontecem pelas esquinas da UFRJ.
Bye beijos 
Ricardo

Ser professor é muito difícil e para ser um bom professor, faltam incentivos… Poucos são aqueles que conseguem se sustentar somente sobre seus ideais a despeito das condições de trabalho… Uma simples ação que cada um de nós pode fazer e que pode ter um grande resultado é valorizar, individualmente mesmo, o trabalho dos nossos mestres. E ensinarmos nossos filhos a respeitá-los.

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Qual o tamanho do infinito?

19/05/2011

Quando pensamos em infinito, em geral, pensamos naquilo que não conseguimos ver os limites ou que não conhecemos. O céu nos parece infinito. Pensamos nas galáxias, no universo… Mas há cientistas que sugerem que o universo é finito, ainda que se encontre em freqüente expansão. Temos uma noção muito visual do infinito. Só acreditamos que nosso planeta tem fim porque vimos fotografias. Em 2006, porém, tive uma grata surpresa: um professor me ensinou que o infinito cabe na palma da minha mão. Ele disse que, matematicamente, tudo pode ser dividido eternamente. Aí eu entendi que tudo é uma grande concentração de infinito.

Quem foi que disse isso? Meu professor de Complementos da Matemática – disciplina obrigatória do curso de bacharelado em Geografia na UFRJ. Esta disciplina, que geralmente assusta os candidatos a geógrafos, me fez feliz. Eu ia duas vezes por semana, de manhã cedinho, para a faculdade ouvir histórias sobre o infinito, um macaco que caiu da árvore, perdeu o rabo e colocou um óculos, que uma mesa não é uma mesa, sobre santa Teresa de Ávila.

Pra não dizer que não havia número nas nossas aulas, uma vez nós calculamos quantos grãos de areia há na praia de Copacabana. É muito simples, respondemos às seguintes questões:

  • Qual a extensão da praia?
  • Qual a profundidade da areia?
  • Qual a largura da faixa de areia?

Assim, conseguimos saber o volume da areia da praia, em seguida, pensamos:

  • Quantos grãos de areia cabem em uma caixinha de fósforos?
  • Qual o volume de uma caixinha de fósforos?
  • Quantas caixinhas de fósforo cabem no volume de areia que calculamos antes?

Viu como é fácil? Nós calculamos os grãos de areia da praia e isso é lindo! Mais que qualquer equação que só nos leva à resposta dela mesma, como é freqüente nas aulas de matemática. Senti-me mais próxima de Deus, como se Ele tivesse compartilhado um segredo comigo.

Como se não bastasse tanta novidade, a prova final desta disciplina era você fazer o que quisesse. Eu recitei uma poesia. Passei com nota 9,4. Teve gente que tocou violão. Teve gente que contou histórias sobre seu cachorro. Teve gente até que fez fogueira e queimou dinheiro e isso é verdade, antes que você questione.

Mas porque eu fiquei com 9,4 e não 10? Por que a nota se constitui da seguinte forma:

  • Eu me dou uma nota pelo desempenho no curso como um todo.
  • Um aluno aleatório escolhido na hora me dá uma nota.
  • O professor me dá uma nota.
  • É levada em conta a freqüência nas aulas.
  • O dado é jogado.

Aí, da soma calcula-se a média aritmética e eu tenho uma nota.

O triste foi ver que tanta gente desvalorizava as aulas tão ricas desse professor, que se chama Ricardo Kubrusly, e me ensinou coisas eternas.

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Tempo, tempo, tempo

15/03/2011

A cada dia a gente tem a impressão de que o tempo corre mais rápido e, quando a gente comenta isso com os outros, todos costumam concordar. Eu sempre acreditei nisso, não compreendendo, porém, ao certo, o porquê, mas tendo uma certeza empírica que, de fato, as coisas são assim, mais velozes a cada dia. Confesso que, também, nunca busquei uma explicação para este fenômeno, mas um dia ela veio até mim.

Na faculdade de Geografia, tive aula com um dos grandes geógrafos brasileiros, seu nome é Roberto Lobato Correa, me orgulho muito de ter feito parte de sua penúltima turma de alunos na graduação antes de sua aposentadoria compulsória. Do alto de seus quase 70 anos, o velhinho já não ouvia e nem enxergava como antes, mas memorizava os nomes dos alunos pela posição em que se sentavam na sala, já  não tinha mais acuidade visual para desvendar as fisionomias. O que, naturalmente, era um problema, já que – por mais que houvesse um acordo tácito de quem sentaria onde – era normal que houvesse um rodízio de lugares.

Pois bem, a disciplina que estudei com o professor Lobato foi Geografia Cultural e, no meio de tantas discussões sobre espaço – o objeto maior da Geografia – não pudemos prescindir de apreciações teóricas acerca do tempo. Foi quando mais um mistério se revelou para mim, foi quando meu horizonte chegou um pouquinho mais para trás e foi mais um daqueles momentos em que a gente percebe que não sabe nada.

A nossa relação com o tempo muda ao longo da vida. Quando fui um bebê de um mês de vida, um dia representou três por cento do meu tempo de existência. Hoje, tenho 25 anos e o que é um dia para quem já viveu quase dez mil deles? E foi nesse momento que eu compreendi esse mecanismo tão óbvio, mas que nunca havia se revelado para mim. Só então eu entendi porque chega uma época na vida em que o descartável não serve mais, uma época em que o que importa é o que podemos fazer permanecer.

Mas tenho só 25 anos e ainda pretendo viver por muito e muito tempo e o meu conceito de durável já não será mais o que é.

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Beleza brasileira

22/02/2011

Lembro a primeira vez que assisti ao filme Beleza Americana. Foi na escola, na aula de Psicologia, no 2º ano do ensino médio, no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro, em 2001. Achei o filme louco e, especialmente o filminho da sacola plástica voando, absolutamente irracional.

Mas o tempo passa, as coisas mudam e hoje eu consigo apreciar o filme, vendo-o com outros olhos, os olhos de 10 anos depois, encontrando entrelinhas e entendendo críticas. Ou pelo menos acho que entendo, acho que encontro. Talvez encontre a mim mesma e não a nada que alguém quis dizer.

Foram esses mesmos outros olhos que flagraram uma cena inusitada. Andava eu pela praia da Ferradura, em Búzios, com uma câmera na mão, procurando um momento para eternizar, quando encontrei a própria eternidade. Tudo vai e vem, tudo nasce e morre num movimento ininterrupto e nem um pouco constante. Foi isso que aquele côco me disse. Veja o vídeo.